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Pacientes com câncer relatam espera, medo e incerteza em investigação sobre medicamentos suspeitos

Operação Placebo apura suspeitas de falsificação de medicamentos, superfaturamento e fraude em licitações. Entre as possíveis vítimas estão pacientes que dependiam da Justiça para conseguir o tratamento.

Por Peabiru Depressivo

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Pacientes com câncer relatam espera, medo e incerteza em investigação sobre medicamentos suspeitos

Por trás das caixas de medicamentos, dos processos judiciais e dos mandados policiais estão pacientes que lutavam contra o câncer e dependiam do tratamento para continuar vivendo. Agora, famílias tentam descobrir se os remédios entregues eram verdadeiros e se a demora provocada pelo suposto esquema comprometeu a saúde de quem já enfrentava uma doença grave.

A Polícia Civil investiga empresários, advogados e profissionais da área da saúde suspeitos de participar de um esquema envolvendo fraudes em licitações, superfaturamento e possível falsificação de medicamentos utilizados no tratamento contra o câncer.

Em 29 de junho, foram cumpridos 56 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados no Rio Grande do Sul. A ação faz parte da Operação Placebo.

Um dos principais alvos foi o empresário Lisandro Henriques Hermes, que trabalha com a distribuição de medicamentos. Ele foi preso em flagrante depois que os policiais encontraram, na casa dele, diversas caixas de remédios com indícios de adulteração.

De acordo com o delegado Daniel Severo, parte dos medicamentos estava sem identificação. Para a investigação, isso permitiria que novas informações fossem impressas nas embalagens ou cartelas.

Lisandro nega envolvimento no esquema.

Suspeita começou dentro de hospital

A investigação teve início depois que funcionários do setor de oncologia da Santa Casa de Caridade de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul, desconfiaram de um lote de medicamentos e acionaram a polícia.

As embalagens apresentavam diferenças que chamaram a atenção da equipe. Segundo os investigadores, foram encontrados erros de grafia, alterações de cor e textura, além de caixas e bulas escritas em idiomas diferentes.

Uma amostra foi encaminhada ao laboratório responsável pela fabricação do medicamento. Após analisar o produto, a empresa informou à polícia que não reconhecia o lote como legítimo.

A distribuição foi imediatamente suspensa.

Maria ficou dois meses sem o tratamento adequado

O medicamento apreendido seria utilizado no tratamento de Maria Jupira, que enfrentava um câncer no pulmão.

Como o remédio não estava disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a família procurou a Justiça para obrigar o Estado a financiar a compra. O advogado responsável pelo processo havia sido indicado pelo médico que acompanhava Maria.

Após a apreensão do lote suspeito, Maria ficou cerca de dois meses sem receber o tratamento considerado adequado pela família. Mais tarde, ela começou a receber outras medicações, mas morreu aos 57 anos.

A família ainda convive com uma dúvida dolorosa: como Maria já estava em tratamento, as filhas não sabem se ela chegou a receber algum medicamento suspeito antes que as irregularidades fossem percebidas pelos funcionários do hospital.

A investigação não estabeleceu que a morte de Maria tenha sido provocada pelo medicamento ou pela interrupção do tratamento.

Mara também aguardou meses para retomar o tratamento

O mesmo médico que atendia Maria também acompanhou Mara Rodrigues. As duas pacientes conheceram o profissional na Santa Casa de São Gabriel.

Mara já havia enfrentado um câncer anteriormente, mas a doença voltou de maneira agressiva. Segundo ela, o médico informou que havia metástases nos ossos, atingindo regiões como quadril, pelve e costelas.

O profissional teria recomendado um medicamento importado, afirmando não confiar nos resultados do produto brasileiro. Assim como ocorreu com Maria, Mara recebeu a indicação de um advogado para solicitar o tratamento por meio da Justiça.

O Estado foi obrigado judicialmente a pagar pelo remédio. Apesar disso, Mara conta que o tratamento não apresentou os resultados esperados.

Segundo a paciente, o médico disse que entraria com um novo processo para solicitar outra opção de tratamento. Depois dessa conversa, ocorrida em novembro, a família afirma que não conseguiu mais contato com o profissional.

Mara somente conseguiu uma nova consulta na Santa Casa em julho, após aproximadamente oito meses de espera. No fim de agosto, recebeu novos medicamentos para dar continuidade ao tratamento.

Para Isac Alves Rodrigues, filho de Mara, a família ainda busca respostas sobre o acompanhamento da mãe e a fiscalização dos medicamentos que ela recebeu.

“Quem fiscalizou o médico? Quem fiscalizou o que minha mãe tomava?”, questionou.

Médico foi suspenso

Em nota, a Santa Casa de Caridade de São Gabriel informou que suspendeu o médico assim que tomou conhecimento da investigação.

O hospital destacou que não é investigado na Operação Placebo e afirmou que está colaborando com as autoridades.

De acordo com a Polícia Civil, Maria Jupira e Mara Rodrigues estão entre as possíveis vítimas do grupo investigado.

Uma das suspeitas é que o médico identificava pacientes que precisavam de medicamentos não fornecidos pelo SUS e indicava advogados para solicitar judicialmente o custeio dos tratamentos. A investigação apura se, depois das decisões judiciais, empresas ligadas ao grupo forneciam os produtos com preços superfaturados ou com possíveis adulterações.

As responsabilidades de cada investigado e a origem dos medicamentos ainda estão sendo apuradas. Até a conclusão do processo, os envolvidos têm direito à defesa e devem ser tratados como suspeitos.

Fonte: g1.globo.com

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